Publicamos na íntegra a mensagem enviada pela presidente do Movimento dos Focolares, Emaús, por ocasião da beatificação de João Paulo II.
Alegria e gratidão do Movimento dos Focolares pela beatificação de João Paulo II
Está já iminente a beatificação do Papa João Paulo II e, juntamente com toda a Igreja, sentimo-nos invadidos por uma imensa alegria e por uma profunda gratidão. Alegria e gratidão pela dádiva que a igreja nos concede ao reconhecer a santidade deste grande Papa, expressa na sua vida dedicada e consumida, até ao último instante, por Deus e pelos homens.
Continua a surpreender a extraordinária riqueza do seu magistério, assim como a gratidão que o seu testemunho de amor suscita em qualquer latitude, tanto em pessoas cristãs como nos fiéis de outras religiões e em pessoas sem qualquer crença religiosa.
Ele mesmo, por ocasião do 25° aniversário do seu pontificado, nos revelou a fonte de onde tudo jorrava: o segredo íntimo do relacionamento que – como sucessor de Pedro – o ligava a Jesus: «Há vinte e cinco anos experimentei de modo especial a misericórdia divina. (…) Cristo disse também a mim, como outrora dissera a Pedro (...): "Apascenta as Minhas ovelhas" (Jo 21, 16). Todos os dias se realiza, dentro do meu coração o mesmo diálogo entre Jesus e Pedro. No espírito, fixo o olhar benevolente de Cristo ressuscitado. Ele, apesar de estar consciente da minha fragilidade humana, encoraja-me a responder com confiança como Pedro: "Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo"»[i].
Hoje, este evento da Igreja faz-nos penetrar na dimensão daquele “mais”, vivido por João Paulo II dia após dia, com heroísmo.
Juntamente com todos os outros Movimentos, experimentámos o amor especial de João Paulo II ao reconhecer o papel que desempenham na Igreja, como expressão da sua dimensão mariana. Em 1987, falando à Cúria romana, evidenciou a importância dessa dimensão: «A Igreja vive desse autêntico “perfil mariano”, dessa “dimensão mariana” (…) Maria, a Imaculada, precede todos e, obviamente, o próprio Pedro e os apóstolos (…). O vínculo entre os dois perfis da Igreja, mariano e petrino, é estreito, profundo e complementar, mesmo sendo o primeiro anterior tanto no projeto de Deus como no tempo; para não dizer que é mais alto e mais eminente, mais rico de indicações pessoais e comunitárias (…)[ii]».
Abrindo totalmente as portas para a novidade suscitada pelo Espírito Santo, no histórico encontro dos Movimentos eclesiais e novas comunidades na vigília de Pentecostes de 1998, na Praça de São Pedro, João Paulo II reconheceu que os dois perfis «são como que co-essenciais à constituição da Igreja e concorrem, (...) para a sua vida, a sua renovação e a santificação do Povo de Deus.»[iii].
Chiara Lubich estava ligada a este grande Papa não só pelos importantes eventos públicos, mas também por uma amizade pessoal e profunda: as audiências privadas, muitas vezes concedidas durante o almoço, a presença dele em muitas manifestações públicas do Movimento, as cartas pessoais e os telefonemas por ocasião de certas festividades, como «marcos na história do nosso Movimento», impeliam Chiara a exprimir-se assim em 2005, por ocasião da sua morte: «Eu posso testemunhar pessoalmente a sua santidade»[iv]. «Ele vivia de tal maneira o ‘nada de si’ que por vezes, ao sair das suas audiências, sentíamos uma intensa união direta e única com Deus. O Papa levava-nos até Deus, como verdadeiro mediador, que se anula quando atingiu o objetivo»[v]. «Eu fico admirada e com o espírito reconhecido diante de tanto amor e, ao mesmo tempo, grata a Deus por ter podido estar a seu lado e por o ter ajudado, como filhos e “irmã”, tal como me chamou numa sua última carta»[vi].
«A história do Movimento dos Focolares – escreveu Chiara naquela ocasião – é, nestes últimos 27 anos, uma prova do “amor maior” que habitou no coração de João Paulo II. Este seu “amor maior” atraiu o nosso amor, de forma que o Papa entrou no mais profundo do coração de cada membro do Movimento. Não é possível dizer, com palavras simplesmente humanas, quem foi ele para nós.»[vii]
Como não recordar a visita do Papa, no dia 19 de Agosto de 1984, ao Centro do Movimento em Rocca di Papa? Naquela ocasião ele reconheceu explicitamente, na experiência espiritual de Chiara, a presença de um carisma, e afirmou: «Na história da Igreja houve muitos radicalismos do amor. (…) Há também o vosso radicalismo do amor, o de Chiara, dos focolarinos. (…) O amor abre o caminho. Faço votos de que este caminho, graças a vocês, esteja cada vez mais aberto para a Igreja.»[viii]
E como não recordar também algumas das suas expressões sobre nós? Durante o seu discurso no Familyfest de Roma, no dia 3 de Maio de 1981, acrescentou, improvisando: «A vossa espiritualidade é aberta, positiva, optimista, serena, conquistadora… Vocês conquistaram até o Papa… Eu disse que desejo que vocês sejam a Igreja. Agora quero dizer que desejo que a Igreja seja vocês»[ix]. E em 1983, no dia 20 de Março, durante a Jornada de Humanidade Nova: «Muitas vezes, quando estou triste, penso… “focolarinos”. E sinto uma consolação, uma grande consolação!»[x].
Durante as numerosas viagens, em cada canto do mundo onde se fez peregrino, ele aprendeu a reconhecer o nosso “povo focolarino”, como o chamava, recebendo – como disse um dia a Chiara – conforto e apoio.
Ao longo do seu longo pontificado, muitas vezes ele fez-nos sentir o seu amor especial, a profundidade do seu olhar paterno e quase a sua predileção. Recordamos com gratidão o caloroso afeto que demonstrou por Chiara e por muitos de nós em várias circunstâncias, mas também o seu papel determinante ao reconhecer o carisma especial que Deus deu à Igreja e à humanidade através dela.
Um aspecto da especial sintonia espiritual entre Chiara e João Paulo II pode ser reconhecido no sentir e viver a Igreja como comunhão, expressão do amor de Deus por todos os homens. Daí a proposta, expressa na carta apostólica Novo millennio ineunte, feita à Igreja do terceiro milénio: viver a espiritualidade de comunhão para levar novamente Jesus ressuscitado ao coração do mundo[xi].
E assim, neste momento em que festejamos com imensa alegria a beatificação de João Paulo II, por ele e por Chiara a uma só voz sentimo-nos mais uma vez fortemente interpelados a viver com plenitude a espiritualidade que Deus nos deu.
Maria Voce
[ix] Discurso de João Paulo II aos casais participantes do Congresso "Sobre a família e o amor" - 3.5.1981 (expressão não citada no discurso publicado)
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